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quarta-feira, 20 de julho de 2011

Aurélia - a dicionária da língua afiada


A notícia não é nova, mas pelo menos para mim era uma novidade. Você sabia que existe um dicionário que reúne os termos do mundo gay? Pois é, ele se chama "Aurélia, A Dicionária da Língua Afiada" (Editora da Bispa, 143 págs., R$ 24) e é fruto do trabalho minucioso e apurado dos pesquisadores e artistas Fred Lib e Ângelo Vip. 

Ângelo Vip e sua dicionária

Segundo o jornalista Vitor Ângelo - verdadeiro nome de Angelo Vip -, a idéia surgiu quando ele trabalhava em um site gay. A partir daí, foram dez anos de gestação, entrevistas com homossexuais e conversas com amigos para coletar expressões do universo gay brasileiro. 

O título, que faz alusão ao ao Aurélio, não agradou a família do falecido dicionarista e nem a editora detentora. Mas, segundo o dono da Bispa, Xico Sá, trata-se de uma homenagem ao nome que se tornou sinônimo de dicionário. “Além disso, seria muito feio se fosse Houaissa [referência ao autor do "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa", de Antonio Houaiss]”, explica Victor Ângelo.

Com cerca de 1.300 verbetes, o Aurélia traz os termos organizados de acordo com a classificação formal utilizada pelos dicionários convencionais - substantivos, adjetivos, advérbios etc. Além disso, o livro traz a origem geográfica dos vocábulos e outras expressões. 

O politicamente correto do Aurélia, no entanto, termina em sua organização. O tom utilizado no dicionário está longe de fazer a linha da correção. Na primeira página, os autores avisam: "Este dicionário não tem a pretensão de ser politicamente correto. Muitos termos são chulos e pejorativos, podendo ser ofensivos para determinadas pessoas ou grupos. Nesse caso, recomendamos a interrupção imediata da leitura". O verbete badalhoca, por exemplo, quer dizer “pedaços mais ou menos pequenos de fezes que ressecam e ficam presos aos pêlos do ânus”.

Pelo Brasil e outros países de lusófonos
Do sertão a boates requintadas, a obra traz vocábulos colhidos em todas as regiões do país. No Rio de Janeiro, por exemplo, ir de Angélica significa o mesmo que ir de táxi. Em Goiás, dar uma kenfa é o mesmo que dar um fora em alguém. No estado paulista, o termo extra-fofa refere-se às “barbies que já passaram do peso”. E no Rio Grande do Sul, Gogóia é o mesmo que vagina.

Além de termos regionais, o dicionário também traz vocábulos usados em outros países de língua portuguesa. No Brasil, por exemplo, caminhoneira é um adjetivo pejorativo para a lésbica com aparência ou gestos muito masculinizados. Já em Portugal o termo utilizado é o camioneta. 

Eu já sabia que existiam essas classificações, mas dando uma olhada na Aurélia, descobri que existem mais muito mais que dois ou três termos para designar os tipos de lésbicas. A cookie, por exemplo, é lésbica chic. A boot é aquela lésbica que, como a caminhoneira, é muito masculina. A coronel é a lésbica independente e mais velha, que sustenta a amante. A lesbian chic é aquela que é feminina, culta, bem-arrumada e compoder no picumã. E esses são apenas alguns exemplos.

Veja abaixo outros verbetes e expressões retirados de "Aurélia, a Dicionária da Língua Afiada":

A- art, def, fem.
No mundo gay, o artigo definido feminino é, em muitos casos, anteposto a substantivos próprios ou comuns do gênero masculino, sendo que, no caso dos comuns, o substantivo ele próprio também passa, se possível, para o feminino. Ex.: A Pedro, A Mário; a prédia; a fota; a relógia; a dicionária.

Irene - adj (RS)
Velho. O termo é pronunciado ireeeeeeeene, como o berro de um cabrito

Jogar o picumã- espr.
Virar a cabeça, mudando os cabelos de lado, tal como as loiras fazem, só que de um modo um pouco mais inteligente e com a intenção de menosprezar ou ignorar alguém.

Bafo-Adj.
Termo referente a algo ou alguém que causou alguma coisa. "Ex. Aquela noite foi bafo, bi!"

Jurando- (do v.t.d.i."jurar")
Estar pensando ou acreditando no hype; se sentindo (Expressão usada unicamente no gerúndio).

Bicha-bofe-S.f
Homossexual não efeminado, mas nem sempre ativo.

Bofe-S.m
Homem heterossexual ou homossexual ativo.

Aquendar- (do bajubá) V,t,d. e intr
1-Chamar para prestar atenção, prestar atenção; 2- Fazer alguma função; 3-Pegar, roubar. Forma imperativa e sincompada do verbo: kuein!

Anel de couro - (CE) ânus; edi; rosca

Use a chuca para não passar cheque – utilizar um instrumento para limpeza do reto impedindo que restos de fezes que borram a cueca ou o órgão do parceiro.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Camisinha africana

Comercial antiguinho da Trust, uma empresa africana de preservativos. Apesar de se basear no velho mito dos dotes dos negros e trazer certo preconceito, achei a publicidade bem legal. Engraçada, sem apelar para caras e bocas vulgares ou para mulheres em trajes minimos.


Agora, eis a pergunta. O senso comum diz que as mulheres preferem os bem dotados, mas já ouvi muita amiga reclamando que grande demais é ruim, porque incomoda e dependendo até machuca. O que você acha? Não importa o tamanho da varinha, mas a mágica que ela faz?

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A verdade sobre a traição masculina

Bom, eu não gosto muito dessas matérias de pesquisa porque na maioria das vezes, elas generalizam o comportamento das pessoas, como se todo mundo seguisse o padrão daquele grupo estudado. Mas vamos lá.

A gente sabe que, infelizmente, trair é uma coisa comum (existem até sites que estimulam isso, e outros que criam alíbis para os puladores de cerca). Motivado em descobrir o por quê da traição masculina, o terapeuta de casais M.Gary Neuman fez uma pesquisa com cem maridos de 48 estados norte-americanos. O levantamento resultou no livro “A verdade sobre a traição masculina” (Best Seller, 25,90).

Entre as revelações, Neuman descobriu que sexo não é o primeiro motivo que leva os homens a pular a cerca. Dentre as respostas, o motivo mais citado é a insatisfação emocional, ou seja, os homens vão procurar fora de casa o carinho, o afeto e o reconhecimento que supostamente não tem com as esposas. Segundo o terapeuta, os “Homens precisam ouvir o quanto são maravilhosos e ser apreciados pelos acertos". Ele aconselha que as mulheres demonstrem seu apreço pelo menos 3 vezes na semana. São várias as maneiras sugeridas pelo escritor: comprar os CDs favoritos dele ou uma lingerie nova para aquela noite especial; fazer um prato que ele goste ou um gesto que diga que ele é atraente e sensual. Engraçado, achei que essa necessidade de atenção e carinho fosse algo do ser humano em geral. Nas mulheres ela leva a carência e a discussão de relação. Nos homens a traição. Ah tá, acho que agora entendi.


Outro fator que pode influenciar os homens a trair é o circulo de amizade. "Ter amigos íntimos infiéis cria uma atmosfera que torna a traição parte de sua vida diária", diz Neuman. O terapeuta recomenda que, para afastar essas más influências, a esposa se esforce para ficar perto deles, estando presente nos encontros entre amigos ou os convidando para sua casa. Quando li essa parte, fiquei pensando várias coisas. 1) Que tipo de amigo admite para a esposa de seu colega que ele tem casos extraconjugais? Ou, que tipo de marido fala para a mulher que seu amigo é infiel? 2) Achei essa coisa de “se esforçar para ficar perto dos amigos” um verdadeiro incentivo para limitar a liberdade do outro. Cadê a confiança nessa história? Não é porque seu amigo trai que você irá fazer o mesmo. 3) Se algumas mulheres já eram paranóicas e controladoras, depois de ler coisas assim ficarão ainda mais.

Por fim, o terapeuta sugere que elas procurem entender a mente do homem que têm em casa. Neuman sugere alguns exercícios para ajudar a mulher a perceber os sinais de perigo e melhorar seu relacionamento, antes que ele vá procurar outra. Ou seja: mulheres, se seu homem te trai é porque você não o entendeu corretamente e não soube dar tudo que seu macho-alfa precisou.

Termino o post com o melhor conselho da matéria: se você sente que seu marido está te traindo, tome uma atitude rápida. Não fique procurando culpados, mude de atitude, ache boas saídas e reverta a situação. Oi?

1)      “Não fique procurando culpados”. Mas já está claro quem é o culpado, não? Sinceramente, não entendo essa coisa de colocar a culpa da traição no comportamento do outro – nesse caso na mulher, que não soube satisfazer corretamente os desejos de seu marido. A culpa é daquele que traí e só dele. Se a pessoa está insatisfeita com seu relacionamento, deve tentar resolver os problemas entre o casal e não trazer uma terceira pessoa para a história.
2)      Tome uma atitude rápida, ache boas saídas e reverta a situação. Ao invés de ficar “p” da vida porque foi enganada, prepare um bom jantar, vá ao shopping, compre uma lingerie nova, elogie seu marido durante a refeição e depois, de sobremesa, lhe proporcione uma noite inesquecível de sexo. Quem sabe assim ele desiste da outra. (Plaquinha de ironia – vai que tem algum Sheldon lendo esse post).

A título de curiosidade, se vocês traem, qual é o motivo?

terça-feira, 12 de julho de 2011

All you need is love

As notícias são velhas, mas achei tão bonito que vale a pena postar.

Cenas de cinema. A primeira é de um jovem que beija sua namorada para acalmá-la em meio a uma manifestação em Vancouver, Canadá.




A outra é de uma chinesa que salva um garoto de 16 anos que ameaçava se suicidar. A menina furou o bloqueio policial e conversou com o suicida, dizendo que já havia tentado se matar algumas vezes, mas que aquilo era uma bobagem. Ao fim, ela beija o garoto, dando a oportunidade para que os policiais o salvassem.


Então, aproveitando o clima - e o dia do rock que se aproxima -, deixo uma música pra terminar o post.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Quando o orgasmo vira uma doença


Você já imaginou como seria sua vida se tivesse 200 orgasmos por dia? Parece ótimo não? Gozar com as mínimas vibrações, como a de um celular ou de um secador de cabelo. Mas, e se isso fosse algo completamente fora de seu controle? Você está no ônibus, indo para o trabalho, e de repente começa a sentir as pernas bambas, a suspirar e a gemer. E todos no lotação, olhando para você.  E se acontecesse em algum tipo de evento, como uma conferência ou entrevista de emprego? Ou em uma visita na casa da sogra? É, acho que não seria tão legal assim. E acredite, acontece.

A Síndrome da Excitação Sexual Persistente começou a ser estudada recentemente e por isso ainda é novidade para muitos, inclusive para médicos. Ao que parece, há poucos casos confirmados (li um no G1, outros na Super Interessante), mas os pesquisadores acreditam que o número deve ser bem maior, já que muitas mulheres não procuram ajuda por medo de serem ridicularizadas. Fiquei pensando se aquele vídeo da mulher no parque não seria também um caso dessa doença...

Pouco se sabe sobre essa condição e não há nenhuma explicação científica satisfatória, tampouco cura para a Síndrome. Alguns acreditam que seja conseqüência de alguma inflamação ou infecção na área pélvica que estimula os nervos do clitóris. Outros pensam que a doença tenha fundo emocional. Segundo a Wikpédia:

“A Síndrome de Excitação Sexual Persistente, mundialmente conhecida pela sigla PSAS (do inglês Persistent Sexual Arousal Syndrome, nome que não é mais utilizado pelos especialistas, que agora usam Persistent Genital Arousal Disorder) causa uma excitação espontânea e persistente nos órgãos genitais, com ou sem orgasmo ou obstrução, sem relação alguma com sentimentos de desejo sexual.” Ainda segundo a enciclopédia, a PSAS não tem nenhuma relação com a hipersexualidade (ou ninfomania, como é mais conhecida). 

Me lembro que o seriado Grey’s Anatomy trouxe um caso da Síndrome em seus episódios. A personagem – Pâmela – tinha vários orgasmos por dia e durante um deles perdeu o controle do carro e acabou sofrendo um acidente. A moça virou motivo de curiosidade e piada ao chegar ao hospital e um dos residentes chega a questionar sua vontade de se curar. Sem muita informação, qualquer um pensaria o mesmo. Mas reparem o quanto é desconcertante quando a personagem sofre um de seus “episódios” na frente do pai (peço desculpas antecipadas, mas só achei o vídeo em inglês). 



O penúltimo diálogo resume bem o quanto essa doença deve ser péssima na vida de qualquer um. Pâmela pergunta à Izzie se ela acha que realmente pode curá-la. A residente pergunta porque ela gostaria de se livrar de algo tão bom. A moça responde: “Eu gosto de sexo como qualquer garota. Mas quando você não pode ir ao cinema, dirigir um carro ou ir à missa com seus pais... Sabe aquele sonho em que você está pelada na escola? Bom, é bem parecido com isso”.  

É triste saber que algo tão bom como o orgasmo pode ser o causador de uma vida tão cheia de privações. E ainda há quem faça piada com isso.

sábado, 25 de junho de 2011

Marcha das vagabundas

Uma manifestação que ganhou o mundo e mais recentemente algumas capitais do Brasil, chegou às ruas de Belo Horizonte. A Marcha das Vagabundas  - ou Slut Walk, como é originalmente chamada – aconteceu no último sábado, dia 18 de junho.

Mulheres usando lingeries e roupas provocantes protestaram pelo direito de exercer sua sexualidade como bem entenderem, sem que sejam taxadas de vadias ou putas. Além da marcha das Vagabundas, os protestos reuniram outros movimentos, como a Marcha da Liberdade. “A manifestação em BH foi muito linda, porque ela não foi uma manifestação somente para mulheres ela foi uma manifestação por direitos humanos, por liberdade, por democracia, por direito de moradia e de ocupação dos espaços públicos”, diz a estudante de arquitetura Ettyenne Maia, que participou dos prostestos.

Em BH, os protestos também foram marcados por forte repressão da polícia, como explica Ettyenne Maia. Segundo ela, o motivo da agressão teria sido uma suposta tentativa de invasão ao prédio da prefeitura, o que não teria acontecido. "O que houve foi que alguns manifestantes subiram no hall de entrada do prédio onde começaram a ser empurrados pela guarda municipal e PM. Nós começamos a vaiar e a reação deles foi de jogar sprei de pimenta e gás".



Vadia sim, com muito orgulho

Marcha das vagabundas em BH


Slut Walk em Toronto
O Slut Walk tem suas origens na cidade de Toronto, Canadá, e já aconteceu em países como Argentina, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Holanda e Nova Zelândia. Tudo começou após declarações de um policial canadense que teria sugerido que as universitárias deveriam se vestir de outra maneira, a fim de evitar abusos sexuais. A culpa do estupro não seria daquele que o pratica, mas das mulheres que, ao usaram roupas inadequadas, estariam provocando e justificando o comportamento abusivo. Ou seja, o homem é um pobre animal que não consegue conter seus instintos diante de uma saia curta, por isso, não o provoque.  “Nosso lema no protesto é o de que o corpo de uma mulher é somente dela e este não tem que ser violado por nenhum homem”, afirma Etienne Maia.


No Brasil a Marcha também é uma reação às declarações do comediante Rafinha Bastos. O humorista teria dito: "Toda mulher que eu vejo na rua reclamando que foi estuprada é feia. Tá reclamando do quê? Deveria dar graças a Deus. Isso pra você não foi um crime, e sim uma oportunidade. Homem que fez isso não merece cadeia, merece um abraço". Quando li isso fiquei pensando se o humor está tão saturado e sem criatividade que precisamos insistir em piadas machistas como essa. 

Para o físico Fernando Almeida o protesto foi exagerado. “Acho que as pessoas estão banalizando a liberdade de expressão. Se for assim, vou organizar então uma Marcha dos Machos Comedores. Claro que esses comentários como o do Rafinha Bostas são desnecessários e merecem um processo. Mas não acho que precisa fazer uma coisa nesse nível, se vestir desse jeito ou usar um cartaz com escrito ‘sou vadia!’”, diz.

Boa pra pegar, mas não serve pra casar
Geyse Arruda e o famoso vestido
 No país do carnaval ainda reina a dicotomia puta versus santa. Vivemos em uma cultura que estimula a exibição dos corpos femininos, mas que na prática, despreza aquelas que ousam a fazê-lo. Mulheres que usam roupas decotadas são taxadas de vadias, como se o caráter de uma pessoa estivesse associado àquilo que ela veste. Quem não se lembra do caso Geyse Arruda, a estudante da Uniban que causou tumulto e foi insultada por vários colegas ao usar um vestido curto? Quantas vezes já não ouvi amigos dizerem que “fulana serve para comer, mas não presta para namorar”, ou “ciclana dá pra todo mundo, não presta”.

Indo um pouco mais longe, me lembro do caso Ângela Diniz, uma socialite mineira que foi morta por seu companheiro, Raul Fernando do Amaral Street ou Doca Street, como era mais conhecido. O caso aconteceu na década de 70 e na época, Ângela foi considerada a causadora de seu próprio assassinato. A vitima mereceu ser morta devido a sua má conduta: uma mulher divorciada, que teve vários amantes, adorava festas e roupas bonitas. Durante o julgamento, havia até mesmo mulheres na porta que torciam por Doca e lhe enviavam cartas apaixonadas. Ele chegou a ser absolvido, sendo condenado somente após dois julgamentos.

Infelizmente ainda vivemos aquela mesma velha história, de controle da sexualidade feminina. O homem pegador é o macho alfa e a mulher que não se encaixa nos padrões - de vestimenta e de comportamento - é a puta.

Achei um texto muito bom da Marjorie Rodrigues sobre a Marcha das Vagabundas. E você, o que acha do movimento?

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Uma mordidinha não dói

@normalucia.69 - No post de hoje Madame Bovary traz o erotismo de Anne Rice, autora de livros como "Entrevista com vampiro" e "Rainha dos condenados".

Nem é preciso uma análise muito complexa para se chegar à conclusão de que vampiros estão entre os Top 10 de “Seres fantásticos sensuais”. São muitas as representações de vampiros ao longo da história e Anne Rice é uma das autoras que marcaram o nosso imaginário sobre vampiros. Os seres noturnos de Rice exalam sensualidade e as obras da autora estão recheadas de erotismo. 

Algumas das obras de Anne Rice
“Seu rosto se inflamou. Ele olhou para mim, para meus seios, minhas ancas e depois meu rosto. Envergonhado e tentando disfarçar. Desejo.
- Você continua sendo homem? – perguntei.
Ele não respondeu. Mas sua expressão esfriou.
- Você nunca saberá inteiramente o que eu sou! – disse ele.
(...)
- Essa transformação, essa passagem para a espécie dos bebedores de sangue, isso não aumentou sua estatura. Será que aumentou alguma outra parte sua?” (Pandora, p.126)
Seres altamente sexualizados, mas com um “pequeno problema”: seus órgãos sexuais não têm muita utilidade mais.

“- Pandora, amo você! – exclamou ele desarmado.
- Ponha isso dentro de mim – disse eu pegando o que ele tinha entre as pernas. – Me complete e me abrace.
- Isso é bobagem e superstição!
- Nada disso – disse eu. – É uma coisa simbólica e reconfortante.
Ele obedeceu. Nossos corpos se uniram, ligados pelo órgão estéril dele que agora para ele era a mesma coisa que seu braço (...)” (Pandora, p. 175)

Nas histórias de Anne Rice – e no imaginário vampiresco no geral –, o equivalente ao ato sexual é a mordida, o tal beijo do vampiro. Dizem, inclusive, que o prazer sentido nesse momento supera, e muito, o gozo que nós, simples mortais, sentimos.

“Estávamos abraçados, eu queria cravar-lhe meus dentes, beber seu sangue, e fiz isso, e senti-o bebendo o meu. Essa era uma união mais forte do que qualquer outra que eu já conhecera num leito conjugal (...).” (Pandora, 175)

Outra característica dos personagens criados por Rice é, digamos, a falta de critérios rígidos para a escolha do objeto de desejo. Os vampiros não se prendem a questões como gênero, idade, raça ou parentesco. É comum que os personagens da autora se sintam atraídos por pessoas do mesmo gênero e de gêneros diferentes, por irmãos, primos e afins, e por adultos ou crianças – em alguns momentos isso é mostrado de forma explícita, em outras, de forma insinuada. Tudo isso é colocado de maneira natural, sem rótulos. A relação de Louis e Lestat em “Entrevista com o vampiro”, por exemplo, não é definida claramente, mas está nesse lugar de encantamento, sedução e atração.

“Agora me escute, Louis – disse ele, sentando-se a meu lado no degrau, de modo tão gracioso e íntimo que me fez pensar nos gestos de um amante. Recuei. Mas ele passou seu braço direito por meus ombros e me aproximou de seu peito. Nunca havido estado tão próximo dele, e sob a pálida luz, pude perceber o magnífico brilho de seus olhos e a superfície sobrenatural de sua pele. Quando tentei me mexer, colocou os dedos em meus lábios e disse: Fique quieto.” (Entrevista com o vampiro, p. 25).




Outro exemplo é a relação de Louis com Cláudia, uma menina-vampiro que tem como destino nunca chegar a ser mulher.

“Não podia suportar aquilo: olhá-la [Louis está se referindo a pequena Cláudia, antes de transformá-la em vampiro], querendo que não morresse e desejando-a. E quanto mais a olhava, mais podia sentir o gosto de sua pele, sentir meu braço escorregando por suas costas e puxando-a para mim, sentir seu pescoço macio. Macio, macio, era assim que ela era, muito macia. Tentei dizer a mim mesmo que para ela seria melhor morrer – o que seria dela? – mas tais pensamentos não serviam de nada. Desejava-a!” (Entrevista com o vampiro, p. 90-91)
Belos, charmosos e cultos. Não é de se espantar que os vampiros da autora povoem as fantasias sexuais de menininhas por aí. E mesmo quem acha que ter sonhos eróticos com vampiros não é uma coisa muito saudável, deve confessar que com a escrita altamente sensual de Anne Rice não tem como impedir um ou outro arrepio – de desejo.

Jogo rápido: Anne Rice


Esse ano Anne Rice completará 70 anos
 
Ela nasceu em Nova Orleans, nos Estados Unidos – cidade presente em vários dos seus romances. Seu nome de batismo é Howard, só depois se autodenominou Anne.  Após a morte do marido, em 2002, deixou de escrever livros sobre seres fantásticos, tornou-se cristã e passou a se dedicar a obras com temáticas religiosas. Em 2010, ela abandonou o cristianismo por não conseguir ser antigay, antifeminista e anti-contraceptivos. Anne Rice virá para a Flip deste ano.